Como fazer a árvore genealógica da sua família
Montar uma árvore genealógica não exige dinheiro, programa pago nem conhecimento de história. Exige conversar com as pessoas certas antes que seja tarde, pedir alguns documentos e anotar o que você descobrir de um jeito que sobreviva a você. Este guia é para o Brasil, e é prático.
Escrito em outubro de 2026 · revisado quando a legislação ou os procedimentos de cartório mudarem
1. Comece por você, não pelo antepassado mais antigo
O erro mais comum é começar pelo nome mais antigo que a família conhece — o bisavô que veio de Portugal, o tataravô que “era primo de alguém importante”. Você monta uma linha bonita e descobre, meses depois, que não tem como provar que ela chega até você.
O caminho é o contrário. Escreva seu nome completo, data e local de nascimento. Depois seus pais. Depois os quatro avós. Cada geração para trás se apoia na anterior, e cada ligação é verificável.
Oito bisavós são uma meta realista para as primeiras semanas. Quem chega aos oito com nome completo, data aproximada e cidade já tem uma árvore melhor do que a maioria das famílias registrou.
2. Converse com os mais velhos antes de procurar documentos
Esta é a parte urgente, e a única que tem prazo. Documento de cartório continua lá daqui a dez anos. A memória de quem tem noventa, não.
Perguntas que rendem mais do que “me fala dos nossos antepassados”:
- Como a senhora chamava a sua avó? Apelidos levam a nomes reais, e nomes reais levam a certidões.
- Onde eles moravam quando o senhor era criança? A cidade é o que permite achar o cartório certo.
- Quantos irmãos o seu pai tinha? Tios revelam casamentos, e casamentos revelam a geração acima.
- Alguém da família guardou papéis? Caixa de sapato com documentos velhos resolve mais que um mês de pesquisa.
- De onde a família veio? Mesmo uma resposta vaga — “do interior da Bahia”, “eram italianos” — reduz muito o campo de busca.
Grave a conversa, com permissão. O que parece irrelevante hoje vira a pista que destrava tudo depois de você já saber o que procurar.
3. Os documentos que resolvem a maior parte
Três certidões sustentam quase toda a pesquisa brasileira, e todas vêm do cartório de registro civil da cidade onde o fato aconteceu:
- Certidão de nascimento — traz os nomes dos pais, e às vezes dos avós. É o documento que abre a geração anterior.
- Certidão de casamento — traz os pais dos dois noivos de uma vez. É o melhor negócio dos três.
- Certidão de óbito — traz filiação, estado civil e, com frequência, a cidade de origem de quem migrou.
O registro civil ficou obrigatório em 1889. Antes disso, quem registrava nascimento, casamento e morte era a Igreja: os livros de batismo, casamento e óbito das paróquias. Muitos foram recolhidos por arquivos diocesanos e estaduais, e parte está digitalizada.
Certidão de quem já morreu há muito tempo é pública: qualquer pessoa pode pedir, não só parente. Se não souber a cidade de nascimento de alguém, procure primeiro a certidão de casamento dos pais dele — ela costuma dizer.
4. Como funcionam os sobrenomes brasileiros
Entender isso economiza semanas, porque permite adivinhar com método o sobrenome de quem você ainda não achou.
A ordem usual no Brasil é sobrenome materno primeiro, paterno por último. E o sobrenome que uma pessoa transmite aos filhos costuma ser o último dela.
Se o pai é João Pereira da Silva e a mãe é Maria Souza Lima, o filho costuma ficar Lima da Silva — o último dela, depois o último dele. Partículas andam grudadas: “da Silva” é uma coisa só, não “da” e “Silva”.
Isso funciona ao contrário também: se você encontrou Ana Ribeiro Fontes e sabe que o pai se chamava Antônio, há boa chance de ele ser Antônio [algo] Fontes. É palpite, não certeza — anote como palpite até a certidão confirmar.
Duas ressalvas que valem para o Brasil inteiro: é convenção, não lei, e muitas famílias fizeram diferente; e mulheres casadas frequentemente trocaram de sobrenome, de modo que a mesma pessoa aparece com dois nomes diferentes em documentos de épocas diferentes. Anote os dois.
5. O que fazer quando falta um nome
Vai acontecer, e cedo. Uma bisavó de quem ninguém lembra o sobrenome. Um pai que não consta na certidão.
A tentação é deixar em branco e seguir. O problema é que, sem esse nó, os filhos dessa pessoa ficam soltos — e some a informação de que eles eram irmãos entre si, que é um fato que você sabe.
Registre a pessoa como desconhecida, com o que se souber: provavelmente era mulher, provavelmente nasceu entre tais anos, provavelmente naquela região. Ela existiu. Quando a certidão aparecer, você troca o desconhecido pelo nome e nada mais precisa ser remontado.
6. Datas de que você não tem certeza
“Por volta de 1890” é informação. “Antes da guerra” é informação. “Entre 1920 e 1925” é informação. Nenhuma delas é erro, e nenhuma delas deveria impedir você de salvar o que descobriu.
O que atrapalha de verdade é escolher um ano exato para preencher o campo e esquecer que foi um chute. Seis meses depois, aquele palpite virou um fato na sua árvore, e você não tem mais como saber de onde veio.
Escreva a data do jeito que você sabe, com a dúvida junto. Um bom programa guarda o texto original intacto e usa um ano derivado apenas para ordenar — sem nunca mostrar o palpite no lugar do que você escreveu.
7. Onde guardar para que sobreviva
Caderno dá conta das primeiras semanas e para de dar conta quando aparecem os primos de segundo grau. Planilha aguenta nomes e datas, mas não representa bem quem é filho de quem.
Duas decisões importam mais do que qual programa você escolhe:
- O acervo precisa ser um arquivo seu. Serviço que fecha, assinatura que vence e conta que se perde levam junto o trabalho de anos. Um arquivo no seu computador, com cópia num pendrive, não depende de ninguém continuar existindo.
- Exporte em GEDCOM. É o formato que praticamente todos os programas de genealogia leem e escrevem, desde os anos 1980. Enquanto você puder exportar em GEDCOM, trocar de programa não custa o seu trabalho.
Se quiser comparar as opções — gratuitas, pagas, online e de computador —, escrevemos uma comparação honesta entre os programas de genealogia, dizendo inclusive em que cada um é melhor que o EloTempo.
Perguntas frequentes
Por onde começar uma árvore genealógica?
Por você. Escreva seu nome completo, data e local de nascimento, e vá para trás uma geração por vez. Começar pelo antepassado mais antigo é o erro mais comum.
Quantas gerações dá para alcançar no Brasil?
Com registro civil, normalmente até 1889, quando ele passou a ser obrigatório. Antes disso valem os registros de igreja — batismo, casamento e óbito nas paróquias. Na prática, muitas famílias chegam ao início do século XIX.
Como pedir uma certidão antiga?
No cartório de registro civil da cidade onde o fato aconteceu. Certidões de pessoas falecidas há muito tempo são públicas, e qualquer pessoa pode pedir — não é preciso provar parentesco.
Qual sobrenome os filhos herdam?
Na convenção mais comum, o último sobrenome de cada pai: o último da mãe e depois o último do pai. É convenção, não lei.
O que fazer quando não se sabe o nome de um antepassado?
Registre a pessoa como desconhecida em vez de deixar em branco. Ela existiu, e os filhos dela precisam de um lugar para se agrupar.
Preciso pagar por um programa?
Não. Há programas gratuitos e de código aberto, sem limite de pessoas e sem assinatura. Os serviços pagos compensam quando o que você quer é buscar em acervos digitalizados — que é uma atividade diferente de registrar o que a sua família já sabe.
Um programa gratuito para registrar tudo isso
O EloTempo foi feito exatamente para o que este guia descreve: registrar o que a família sabe, com os nomes que faltam marcados como faltando e as datas incertas escritas como incertas. Funciona sem internet, não tem limite de pessoas, não pede conta e o acervo é um arquivo seu. É software livre, sob licença GPL-3.0.
Ele também põe cada vida ao lado da história do país — o que acontecia no Brasil no ano em que o seu bisavô nasceu, qual moeda circulava, que tecnologia estava chegando.